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Palavras Corridas – UTDP 2018

Assim que abro os olhos sei que o dia está finalmente aqui. A ansiedade que horas antes ameaçava não me deixar descansar estava já bem lá atrás e a noite bem dormida faz-me saltar da cama como se tivesse molas.

Corro para a cadeira onde deixei de véspera tudo pronto: a mochila com água suficiente para a 1ª etapa, a manta térmica obrigatória, a energia extra em forma de gel, o boné, os bastões… O ponto de encontro com os restantes era às 7:00h no café de Tendais e tudo começaria nos panikes quentes, como se eles nos fossem dar a última dose de coragem para o que aí vinha.

O UTDP é a nossa prova! A mãe de todas as dificuldades mas também tínhamos a certeza de que a nossa Serra não nos iria desiludir e tudo faria para nos retribuir em beleza.

À chegada a Cinfães apressam-se os três mais afoitos (ou doidos) deste grupo de Coxos que se decidiu a enfrentar os 40K. Os outros parecem não compreender a nossa pressa mesmo que a prova só comece dai a meia-hora e nenhum de nós ter qualquer vontade de aquecer. Um belo aquecimento iremos ter nós daqui a nada, certamente…

Os últimos incentivos e beijos de até já separam o grupo nas distâncias dos 40K, 20K e 13K.

10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1 Partida!

O coração a mil, os pés a zero! Parecem não querer arrancar! Forço-me a mexê-los e relembro a mim própria o mantra que hei-de repetir nas próximas horas: “Dá só o próximo passo, Luísa. E logo a seguir dá outro!”

Debaixo de uma chuva de incentivos sigo até deixar Cinfães para trás, numa subida inicial por dentro da vila, em caminhos de pedra polida. Como sempre, no início de cada corrida, o meu coração parece querer saltar-me do peito e obriga-me a seguir passo a passo, a andar. A corrida guardo-a para pisos menos íngremes.

Todos parecem ser mais rápidos do que eu mas isso não me desanima. Deixo-os ir… Prefiro ter a estrada só para mim enquanto procuro o meu próprio ritmo.

Este ano o sol está já firme no horizonte e promete um dia de calor mas também deixa antever uma visibilidade límpida da paisagem que no ano passado não tive. Olho para trás e por entre o arvoredo vejo o Carlos lá ao fundo, já a alguma distância. É o último por agora mas sei que não o será por muito mais tempo e volto a olhar para cima, para o resto dos atletas a desaparecerem no horizonte. Do Juvenal, sem dúvida o mais rápido de nós, nem rasto!

Já vejo Cinfães lá atrás e puxo dos meus bastões e neles me apoio, tentando poupar a lesão na anca que tanto me atazanou nos últimos meses. Só quero que não me doa, pelo menos até meio da prova, e que me deixe terminar.

Tenho sempre em mente que tenho de chegar a São Pedro em menos de 3 horas e vou acompanhando a minha progressão no meu Garmin.

Depois de uma zona fechada de arvoredo dou comigo numa estrada com uma vista já a prometer o infinito e mais além. Paro um pouco para recuperar o fôlego e rodo sobre mim mesma, tentando reter na minha mente a fotografia panorâmica do que me parecem ser dezenas de cumes de montanhas a emergirem timidamente da névoa matinal. É simplesmente maravilhoso…

Na última casa vejo um senhor a lavar o seu carro e convenço-o a molhar-me. Foi este o primeiro de muitos banhos retemperadores ao longo do percurso!

Quando avanço e vejo que também já deixei alguns quilômetros para trás decido-me a acelerar até São Pedro. Já o vejo! Lá está ele, imponente, protegido por encostas pejadas de penedos e tojos, com trilhos serpenteantes, por esta altura cheios de caminhantes como eu. Sorrio pois sei que, ao menos alguns, estão afinal ao meu alcance e sigo confiante de chegar ao cimo antes das 2:30h. Falho por pouco, faço-o em 2:27h e no abastecimento reponho a água que sei que me vai fazer falta nos próximos quilómetros.

Vejo que o Carlos chega pouco depois e, deixando-o a abastecer, sigo o meu caminho. Eu sabia que ele me iria alcançar e parte de mim sorri por dentro, por isso só ter acontecido agora, após São Pedro e por ter feito um tempo inferior ao dele do ano passado.

Depois de 13Kms de subidas chegou a vez de descermos e faço-o alegremente, sentindo-me estranhamente enérgica e otimista. Um terço do caminho já está! O Carlos passa-me e quando lhe digo que a montanha já não me mete medo ele ri-se e afiança que ainda não vi nada.

Lá vai ele “caçar os moribundos” como lhes chama e lá vou eu ao meu ritmo confortável, pois sei que muitos quilômetros faltam ainda percorrer e decido que não há pressa. Não conhecia esta parte de Montemuro: penedos, vegetação rasteira, trilhos estreitos mas bem delineados por pequenas bandeiras cor de laranja… Ao meu redor só o cinza da pedra, os vários tons de verde da vegetação e o azul vibrante de um céu virgem de nuvens.

Estava na altura de provar a mim própria que também eu conseguiria fazer algumas ultrapassagens! Este já vai em esforço… Com licença! Sigo e vejo duas mulheres que avançam com dificuldade e forço-me a ultrapassá-las… Feito! E aquele com bastões? Corro, ele acelera e parece não me querer deixar passar! Não o consegue por muito mais tempo!

Torna-se um passatempo ultrapassar só mais um e perco-lhes a conta enquanto dou comigo a entrar num ribeiro. Sei que ainda não é o Bestança mas são já os meus domínios. Estas pedras conheço-as bem e saltito-as com confiança, sem medo de resvalar como vejo muitos dos meus companheiros fazerem. Pisar as que estão com musgo, evitar as castanhas escorregadias! Eu sabia-o e muitos deles não! Ainda bem…

Quase sem dar por isso dou comigo já em Tendais. Já fiz 20 km, olho para o relógio e vou ainda abaixo das 4:00h de prova. Talvez seja mesmo possível acabar abaixo das 8:00h!

Animada com essa perspetiva fico alguns minutos a descansar, a comer e a beber. Ouço duas pessoas a pedirem para serem levadas para a meta desistindo e, embora me sinta mal por eles, sei que não é esse o meu destino.

Arranco recuperada e a correr por esses velhos caminhos da aldeia, por esta altura já com o sol a aquecer mais do que o desejável. Cruzo-me pela primeira vez com um grupo de rapazes e raparigas (hei-de encontrá-los muitas vezes até ao final) a refrescarem-se na água que cai junto ao caminho e junto-me a eles. Que bem que me sabe! Arranco novamente e pouco depois são eles que me passam alegremente. E neste “passo eu” e “passas tu” conversamos e confesso que a “minha” aldeia de Vila Boa não está muito longe e um deles também partilha que costuma passar férias em Soutelo. Há tempo para tudo e ainda bem!

Depois de Tendais o caminho torna-se mais estreito e sinto que estas pedras que aqui devem estar há séculos a serem pisadas por gerações locais, devem estar a estranhar este tremendo rebuliço.

O Bestança ruge já bem perto e anseio pelo momento de o atravessar mas quem planeou estes trilhos tinha outros planos para nós… Tão depressa a água parecia estar já ali, como a seguir éramos obrigados a subir para longe dela…

Numa dessas aproximações vejo uma grande queda de água e reconheço-a! Já a tinha visto do topo um dia e nunca tinha descoberto o caminho até a sua base.  Seria agora? Errado! Toca a subir, Luísa! Tomo nota mental para cá voltar mas dessa vez para seguir o caminho oposto das fitas vermelhas que me indicam agora outro destino.

Por agora é hora de seguir! Bebo constantemente, seguindo o conselho da minha treinadora: hidratar, hidratar! O calor é por esta altura sufocante e cada poça de água serve para refrescar os pés e cada pequena queda de água no caminho serve de duche revigorante. Deverei ter andado encharcada da cabeça aos pés pelo menos 80% da prova.

A Covelas chego já com quase 30 kms feitos e com 6 horas de prova. Reabasteço de água, uma banana e um pouco de marmelada e não perco tempo! Falo novamente comigo própria em voz alta: “Luísa, faltam só 10 kms! Tu fazes isto em uma hora e meia, duas no máximo!”

Desta vez sei que o Bestança me espera com toda a sua dureza e beleza, mas sei agora que estava a ser demasiado otimista. Começa aí o carrossel mais louco do mundo ou pelo menos do meu mundo! Descidas a pique, bastões atirados lá para baixo para me poder agarrar às árvores, apanhar os bastões e recomeçar a subir com os pés a resvalar na poeira…

Um verde intenso rodeia-me e, embora me proteja do calor, também escurece partes do caminho dando a ilusão de estar no meio dos perigos da selva Amazônica. Fico sozinha muito tempo, concentrada e quase caindo uma série de vezes. Quando isso acontecia vociferava e gritava comigo própria para manter a concentração. Espero que ninguém tenha ouvido esta louca a gritar sozinha no leito do Bestança!

Passo depois por alguns atletas, muitos mais jovens do que eu, e curiosamente sou eu que lhes ofereço ajuda e apoio: “Vamos! Já só faltam 7 kms!”, asseguro. Eles dizem para seguir e eu lá vou…

Quando chego ao moinho com a fita a indicar o caminho para o seu interior, sei bem onde estou e corro para o rio! O que eu esperei por este momento! Tiro rapidamente a mochila e mergulho nas águas tão maravilhosamente geladas do meu Bestança! Estou sozinha o tempo suficiente para não conter a minha alegria e gargalhar como uma criança solta no seu parque favorito. Toda eu sou cansaço, água e gratidão!

A chegada de outros valentes recorda-me que eu tenho um objetivo e digo até já ao leito do Bestança para seguir para a sua margem, serpenteando por entre velhos trilhos, pedras e lama.

Volto a atravessar o ribeiro mais límpido da europa mais à frente e deixo-o a custo para trás pois sei o que me espera e respiro bem fundo, buscando forças onde já não existiam muitas mais guardadas. Estou a uns míseros 6 quilômetros da meta mas demorei quase uma hora para fazer 4 quilômetros! Lá se vão os meus planos de fazer a prova abaixo das 8:00h.

Volta o carrossel: descidas assustadoras e subidas de tirar o fôlego. Sobe e desce! Desce e sobe, uma e outra vez! Ao longe ouve-se a civilização na forma de música popular gritada por um altifalante, certamente em Pias.

Alcanço um jovem rapaz desanimado a olhar para cima, tentando encontrar forças para avançar e puxo por ele. Lá me acompanha durante algum tempo e confessa que não sabia bem ao que vinha… Era também a sua primeira vez a tentar os 40 Kms… Um pouco mais à frente acelero um pouco e tenho de o deixar para trás se quero chegar às Pias rapidamente e é nessa altura que o meu Garmin fica sem bateria.

Sei que devo estar a menos de 2 kms do abastecimento e continuo a falar comigo mesma dizendo que já falta pouco. A cada subida dizia que devia seguramente ser a última, só para voltar a ter de subir outra e outra vez…

Quando chego a Pias não chego sozinha. A minha temida dor na anca regressa e se ao menos eu não conhecesse o que me espera nestes últimos 3 quilômetros e meio… Desistir nunca me passou pela cabeça mas a dor forte que sentia lembrava-me de que chegar à meta iria sair-me caro. Tomo um analgésico e envio um SMS para o restante grupo: “Vou sair agora de Pias. Rezem por mim!”

Seguem-se 3 quilómetros e meio feitos em quase uma longa hora, de passo a passo, pé ante pé. Nem tento parar para descansar, sabendo que se o fizesse poderia não voltar a encontrar forças para recomeçar…

Sabia que já estava tão próxima do fim e só me restava insistir mais um pouco. Depois vi o alcatrão e uma cara familiar a gritar o meu nome!

Era o Beto, a incentivar-me a acabar. Nesse momento ouço vozes atrás de mim e reconheço o tal grupo de amigos com quem me cruzei ao longo da prova e aí voltaram as forças para voltar a correr. Era agora uma questão de honra, depois de toda a dor, de todo o suor, acabar pelo menos à sua frente!

Passou tudo menos a vontade de atravessar aquela meta! Chegava ao fim a prova que tanto preparei e temi ao mesmo tempo!

Terminei o UTDP 2018 em 8:41h, 18ª no meu escalão e por isso ganhei! Ganhei o direito de querer ainda mais… da serra e de mim!

4 thoughts on “Palavras Corridas – UTDP 2018

  1. Maravilhoso texto. Estás de parabéns és lutadora. ao ler revivi vários momentos maravilhosos e também sofredores, ainda te vou encontrar em Ultras de 100K vais ver.
    BJ e Força

  2. ” Arranco recuperada e a correr por esses velhos caminhos da aldeia, por esta altura já com o sol a aquecer mais do que o desejável. Cruzo-me pela primeira vez com um grupo de rapazes e raparigas (hei-de encontrá-los muitas vezes até ao final) a refrescarem-se na água que cai junto ao caminho e junto-me a eles. Que bem que me sabe! Arranco novamente e pouco depois são eles que me passam alegremente. E neste “passo eu” e “passas tu” conversamos e confesso que a “minha” aldeia de Vila Boa não está muito longe e um deles também partilha que costuma passar férias em Soutelo. Há tempo para tudo e ainda bem!”

    A senhora da terra 😉 …Passamos por Soutelo e passamos pela casa para onde vou 😉 hehe .
    São estes pequenos momentos trocados entre pessoas que lá estão para desfrutar de tudo, que , pelo menos a mim, fazem valer a pena o esforço . Se não for antes … até para o Ano 😉
    Abreijos e boas corridas …

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