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Uma pequena história de Natal

Lá fora chove. A mesma chuva miudinha e persistente que nos últimos dias não dá tréguas e que tornara o mundo lá fora sombrio e triste.

Não que isso me faça qualquer diferença. Cá dentro a escuridão é ainda maior e o frio mais intenso que nunca, apesar da lareira crepitante à minha frente.

A velha casa de pedra reclama pelas suas frinchas como se acreditasse que eu lhe poderia valer. Está por sua conta tal como eu, que não espero nada de mais ninguém.

Um toque na porta, apressado e insistente, acordam-me do meu torpor. Deve ser um ramo que o vento atirou.

O toque regressa mais forte, uma e outra vez.

Levanto-me lentamente, aborrecido por tal incómodo! Quem se atreve a acordar-me assim?

Abro a porta e só o breu me encara de volta. Com a cara fustigada pela chuva e pelo vento, bato com a porta e regresso a maldizer a minha sorte.

Atiro mais um tronco para o lume e volto-me para o velho cadeirão à sua frente. Uns olhos vermelhos encaram-me de volta fazendo-me gritar com o susto.

Mas que raio??

Um velho e gordo gato preto, molhado até aos ossos, olha-me desafiante, sentado no meu cadeirão como se toda a vida ali pertencesse!

Grito-lhe que saia. Ele ignora-me virando o focinho e começando a aprumar, lentamente, o pelo fustigado pela tempestade.

Resmungo enquanto o empurro da cadeira e ocupo finalmente o meu lugar.

Só me faltava isto! Um velho e gordo gato a invadir-me a casa na véspera de Natal como se tivesse recebido um convite especial…

Tem azar! Aqui não há bacalhau, nem couves, nem risos de crianças e muito menos decorações e prendas.

Não desde há muitos anos, no que me parece ter sido um outro mundo onde eu era outro que não este velho, aqui sentado a olhar para um velho gato gordo vadio.

Desvio o olhar para o lume e a mente para o tempo em que o Natal era quente e preenchido de gente.

Nesta pequena casa, no fundo desta pequena aldeia, perdida bem no alto desta serra, agora só o vento me responde.

Os poucos a quem ainda chamo de meus estão longe, noutra vida onde cada vez tenho menos lugar.

Queriam que tivesse ido ter com eles! Que este ano não podiam eles vir até cá!

Não fui… Mas porque não fui?

Suspiro e sou imitado por um miado de desprezo, soando a critica velada.

O que queres, gato? Que sabes tu da minha vida?

Ele olha-me, espreguiça-se e, alongando-se lentamente, salta-me para o colo e ali se instala a seu bel-prazer.

A minha mão desce para o sacudir mas, para minha surpresa, desliza antes para a sua cabeça, afagando-o.

O vento uiva lá fora a despique com o som da lenha cá dentro e dou conta de que sou agora um velho, com um gordo gato velho no colo a ronronar satisfeito e, de alguma forma, o Natal chegou também para mim.

É assim que se arranja um gato?

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